Fábula do Silêncio - Edgar Allan Poe (tradução de Bruno Perissotti)
A fábula do Silêncio
"O mundo nosso é de palavras:
Quietos clamais
Silêncio -- das palavras mais cabais"
- Al Aaraaf.
"Escutai vós," começou o Demônio, ao pousar sua mão sobre minha cabeça. "Existe um lugar nesta Terra praguejada que jamais miraste. E se já o miraste um dia, há de ser num dos letargos violentos, vindos como o tufão insólito que agride as mentes dos que aleitaram-se para dormir entre os raios de sol proibidos, entre os raios de sol, aviso, deslizantes das colunas solenes dos templos da melancolia nos ermos. A região desabitada da qual falo é na Líbia, ao longo do rio Zaire. E não há quietude ali; e nem mesmo silêncio.
"As águas do rio são de uma matiz açafrã e desfalecida, e não fluem em direção ao mar, mas palpitam eternas debaixo do olho vermelho do sol em movimentos tumultuosos e convulsivos. Por muitas milhas nas duas margens do leito víscido do rio jaz um deserto pálido de lírios d'água gigantes. Suspiram uns aos outros naquela solitude, e estendem em direção aos céus seus longos e horripilantes pescoços, pendulando acima suas cabeças intermináveis. E há um murmúrio indistinto vindo do meio deles como o de correnteza de água subterrânea. E suspiram uns aos outros.
"Mas há um limite nos seus domínios. O limite da grandiosa floresta, horrível e nefasta. Ali, como as ondas nas ilhas Hébridas, a vegetação rasteira está em constante agitação. Mas não há vento nos céus. E as altas árvores primitivas balançam, colidindo, aqui e acolá, causando um som potente. E de seus cumes altos, cai, um a um, o orvalho perene. E nas raízes, flores estranhas e venenosas jazem contorcidas em letargia perturbada. Acima, com um ruído alto e murmuroso, as nuvens cinzas voam eternamente para o oeste, até rolarem em catarátas, sobre a muralha flamejante do horizonte. Mas não há vento nos céus. E nas margens do rio Zaire não há quietude e nem silêncio.
"Era noite, e a chuva caía. Em queda, era chuva; caído, era sangue. Parado no pântano entre os lírios altos, a chuva sobre minha cabeça, e os lírios sussurraram um para o outro na solenidade de sua desolação.
"E, subitamente, a lua, detrás da névoa fina e sinistra, subiu rubra. Meus olhos captaram uma rocha cinza enorme no leito do rio, iluminada pelo luar. E a rocha era cinza, e sinistra, e alta. E a rocha era cinza. Em sua face, símbolos gravados na pedra; andei pelo pântano de lírios-d'água, até que me aproximei do leito, para ler os símbolos na pedra. Mas eu não conseguia decifrar os símbolos. E começava a a voltar pelo pântano, quando a lua brilhou rubra, e me virei, olhando a rocha novamente, e para os símbolos, que diziam "DESOLAÇÃO".
"E olhei acima, e ali estava um homem, em pé no topo da rocha, e me escondi entre os lírios d'água para observar as ações do homem. O homem era alto e majestoso em sua forma, envolvido dos ombros aos pés em uma toga da velha Roma. O contorno de seu rosto não era distinguível, mas suas características eram a de uma Divindade; pois o manto da noite, e da névoa, e da lua, e do orvalho, deixaram à mostra as características de sua face. Seu cenho era solene a ponderar; seus olhos insofridos com cuidado; e, nos raros sulcos de sua face, li uma fábula de sofrimento, desânimo, e desgosto com a humanidade, e um anseio pela solidão. E a lua brilhou sob seu rosto, e nos traços de seu rosto, e eram mais belos que os sonhos aéreos que flutuavam sobre as almas das filhas de Delos!
"E o homem sentou-se na rocha, e apoiou a cabeça em sua mão, fitando em desolação. Olhou para baixo para os arbustos baixos e inquietos, e para as grandes árvores primitivas, e mais acima, para o céu que sussurrava, e para a lua carmim. Ali fiquei sob o abrigo dos lírios, observando as ações do homem. E o homem tremeu na solidão, mas a noite cedeu e ele sentou-se sobre a rocha.
E o homem tirou sua atenção do céu, e olhou para o sombrio rio Zaire, e para as águas amarelas sinistras, e para as legiões de lírios-d'água. E o homem escutou os sussurros dos lírios, do murmúrio que vinha do meio deles. E ali fiquei oculto observando as ações do homem. E o homem tremeu na solidão, mas a noite cedeu e ele sentou-se sobre a rocha.
"Então desci às reentrâncias do pântano, e vadiei para longe entre os lírios, e convoquei os hipopótamos que habitam o atoleiro nas reentrâncias do pântano. E os hipopótamos ouviram meu chamado, e vieram, com o Bəhēmôth, até o pé da rocha, e rugiram estrondosos e terrivelmente sob a lua. E ali fiquei oculto observando as ações do homem. E o homem tremeu na solidão, mas a noite cedeu e ele sentou-se sobre a rocha.
"Então amaldiçoei os elementos com a maldição do tumulto; e uma tempestade horrível levantou-se no céu onde antes não havia vento. E o céu se tornou lívido com a violência da tempestade, e a chuva batia na cabeça do homem, e veio a enchente do rio, o rio atormentado espumando, os lírios gritavam em seus leitos, e a floresta encolheu-se diante do vento, e os trovões rolaram, e o raio caiu, e a rocha foi abalada em seu firmamento. E ali fiquei oculto observando as ações do homem. E o homem tremeu na solidão, mas a noite cedeu e ele sentou-se sobre a rocha.
"Então me enraiveci e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, os lírios, o vento e a floresta, e os céus, e o trovão, e os suspiros dos lírios-d'água. Então foram amaldiçoados e imóveis. E a lua cessou de cambalear em seu caminho para os céus, o trovão desvaneceu, o relâmpago não brilhou, as nuvens penduradas inertes, as águas baixaram, e as árvores deixaram de oscilar, e os lírios não mais gritavam, e no meio deles o murmúrio não se ouvia, nem qualquer sombra de som pelo deserto infindável. E olhei para os símbolos da rocha, e estavam mudados. Os símbolos eram "SILÊNCIO".
"E meus olhos captaram o semblante do homem, esmaecido de terror. Subitamente, levantou sua cabeça do apoio da mão, e prostrou-se na rocha, escutando. Mas não havia voz pelo deserto infindável, e os símbolos da rocha eram "SILÊNCIO". E o homem estremeceu, e virou o rosto, fugiu para longe, e não o vi nunca mais.
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Há contos excelentes nos tomos dos Magi - nos tomos de melancolia, encadernados em ferro, dos Magi. Neles, digo-lhe, têm histórias gloriosas do Céu, e da Terra, e do poderoso Mar, e dos Gênios que dominaram o mar, a terra, e o grandioso Céu. Havia também muito conhecimento nos dizeres relatados pelas sybilas; e coisas sagradas contadas pelas folhas fracas que estremeciam em Dodona -mas, enquanto Alá vivia, para mim, aquela fábula que o Demônio me contou ao sentar ao meu lado na sombra da tumba é a mais maravilhosa! E ao terminar a história, o Demônio caiu para trás na cavidade da tumba e gargalhou. E não pude gargalhar com o Demônio, e por ele amaldiçoado sem conseguir rir. E o lince que habitava eternamente na tumba dela saiu e deitou aos pés do Demônio e fitou sua face fixamente.
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