Memória - HP Lovecraft (Tradução de Bruno Perissotti)



No vale de Nis, a agourenta lua minguante brilha delgada, abrindo caminho para sua luz com chifres débeis pela folhagem letal da grande árvore-veneno. E nas profundezas do vale, onde nenhuma luz toca, pululam formas jamais dignas de contemplação. Grosseiras as forragens em cada encosta, onde videiras malignas e vegetais rasteiros rastejam pelas pedras de palácios arruinados, intimamente entrelaçadas em colunas quebradas e monolitos estranhos, espalhando-se por pavimentos marmóreos confeccionados por mãos já apagadas. E em árvores que crescem gigantes em átrios arruinados saltitam pequenos símios, enquanto de sepulcros profundos abastados de tesouros contorcem-se serpentes venenosas e coisas escamosas sem nome.

Vastas as pedras que hibernam sob mortalhas de musgo úmido, e grandiosas as muralhas donde caíram. Para a eternidade seus construtores as eregiam, e ainda hoje servem nobremente, pois abaixo ainda habita o sapo cinza.

No fundo do vale jaz o rio Fremem, cujas águas viscosas são fartas de algas. De fontes conspícuas nasce, para grutas subterrâneas foge, e o Dæmônio do Vale não entende suas águas vermelhas ou sabe para onde flui.

O Gênio que persegue o luar articulou para o Dæmônio do Vale, dizendo, "Sou velho, e esqueço muito. Conta os feitos e aspecto e nome daqueles que construíram essas coisas em pedra." E o Dæmônio replicou, "Sou Memória, e sábio no saber do passado, mas também sou antigo. Estes seres são como as águas do rio Fremem, não são do nosso entendimento. De seus feitos, não recordo, pois foram do momento. De seu aspecto, recordo vagamente, similar ao dos símios nas árvores. De seu nome, lembro bem, pois rimava com aquele do rio. Estes seres de outrora eram Homem".

Então o Gênio voou de volta à lua de chifres estreitos, e o Dæmônio olhou atentamente para um pequeno símio na árvore que crescia num átrio arruinado.

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